29 de nov de 2010

A Paixão Segundo Bartolomeu

Capítulo I

A beleza será CONVULSIVA ou nada será
(André Breton)


Ouvia-se aquele som, era um lamento de uma viola que surgia junto com uma leve brisa de vento, uma sonora angústia que vinha de um bar de pescadores na baixa da cidade, numa ruela escura, que dava para o mar, com casas em ruínas numa arquitetura que mostrava o auge de uma época passada. Mulheres cantavam cantigas populares nas diversas fachadas em art-nouveau maltratadas pelo tempo, cantavam enquanto estendiam tapetes coloridos nos varais. No outro extremo da ruela, subia uma senhora com várias peças de roupas, envoltas num lençol ao qual carregava tudo em cima da cabeça. Em frente ao bar, haviam várias redes e cordas onde crianças descalças, brincavam como se fossem verdadeiros pescadores, que desafiavam a fúria do mar e as grandes forças da natureza.
No interior do bar, havia um enorme balcão com alguns bancos, logo ao fundo algumas mesas e cadeiras, ocupadas por alguns velhos que jogavam as cartas.  Numa das mesas, surgia um senhor, magro, com o rosto coberto por rugas e uma cicatriz junto ao olho esquerdo, com um cigarro na boca e uma viola entre os braços, tocava um triste fado que falava sobre a solidão das grandes paixões, sobre a queda e a urgência. Na  parede ao fundo do balcão, bóias e retratos em preto e branco chamavam a atenção, retratos de várias pessoas, de grande pescadores, de mulheres que vendiam peixe, com aventais negros e com sinceros sorrisos nos rostos.

Bartolomeu de Almeida, com profundas rugas no rosto e seu comprido cabelo branco, que por vezes lhe caiam sobre os olhos, com sua boina preta e uma postura imponente. Apesar de seus sessenta e sete anos continuava a pescar, orgulhava-se de fazer parte a mais de quarenta anos da Coperativa Local dos Pescadores. Amava a vida piscatória, era um dos pescadores mais antigos do grupo, em seu blusão de lã, levava preso algumas espécies de medalhas, méritos do passado. Arrogante e intransigente, Bartolomeu trazia consigo um ar superior, dotado de antipatia e arrogância, que aniquilava qualquer possibilidade de aproximação e contato. O mar era o seu antídoto quando ele se via perdido no abismo, no auge de seu desespero existencial. Todavia, Bartolomeu já não avistava verdade nem razões em nada, nem nas grandes e violentas ondas que rasgavam os mares e lhe jogavam água fria no rosto, acompanhadas de uma quantidade suprema de adrenalina ao qual o lembrava que ainda estava vivo. Seus olhos, já não brilhavam quando ao fim da tarde, em alto mar, sentava-se na proa do barco e contemplava quando o sol tocava o mar e os deuses dançavam e se lambuzavam com as cores do crepúsculo. Bartolomeu encontrava-se deprimido, inerte, no centro de uma peripécia.

Já passava das treze horas, quando Bartolomeu, friamente, entrou pelo bar dos pescadores e pediu um café, como era habitual fazer sempre depois do almoço. Acendeu um cigarro, e não disse uma palavra a Aleida, a jovem e bela menina que trabalhava no bar. Filha de pescadores, com seus belos olhos escuros, no auge de seus  dezessete anos, Aleida estudava de manhã e trabalhava no bar no resto do dia. Bartolomeu viu Aleida crescer e se tornar uma bela mulher, mas preferia sempre o silêncio.

continua...