Allegory of age - Abraham Bloemaert (1566–1651)
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Era sempre a mesma coisa, sempre na mesma hora.Um sujeito velho, calvo, com um casaco preto, óculos, ar de elegante, vivido e sábio. Sempre se sentava no balcão do Restaurante em meio a confusão que era aquele estabelecimento sempre cheio, com muitos clientes. Mas aquele velho senhor parecia não ser desse mundo, ou não estar nele. Saudava a todos, sempre de cabeça baixa, simples e bem discreto.Bebia sempre vinho tinto, por vezes fumava, mas nem sempre. Sempre acompanhado de um livro, nunca o vi com jornal, revistas ou coisas do gênero, não, era sempre um livro. No meio daquela confusão, quase ninguém notava a sua presença, e o sentimento era recíproco pois ele por vezes parecia que estava nas nuvens e absolutamente nada poderia trazê-lo para baixo, os céus era seu habitat. Algumas vezes notava que aquele velho senhor, deixava o livro de lado e colocava a mão direita no rosto e fixava seu olhar em algo, na verdade olhando pro nada. Ele já com seus setenta anos, lembrava de sua vida, de sua juventude, de sua profissão, de suas viagens pelo mundo afora.Todos seus amigos já aviam se casado, outros já tinha ido pro infinito no qual isso lhe trazia muita tristeza, pois se questionava o porquê de não ter sido ele.Já não mantinha contacto com ninguém, pois vários de seus amigos já tinham famílias, netos, e ele nunca tinha constituído isso, se sentia diferente, e era. Quando se deitava, vinha na sua memória como raios poderosos flashs de seus momentos mais felizes. Quando jovem era fotógrafo, viajava o mundo por sua profissão, trabalhava em uma revista sobre ciências. Onde havia pesquisas,e matérias que poderiam dar "audiência" a revista, ele lá estava.Lembrava de viagens ao Cairo, das pirâmides, dos arguiles que de lá trouxera. Das turbulentas viagens a Ásia, Coréia, Japão, China onde sempre tinha dificuldades com a adaptação. Dos amigos que deixou em Buenos Aires onde lá por meses ficou devido a algumas matérias sobre a Argentina do século XX, os Andes, enfim, ele simplesmente adorava a capital Argentina. Na Europa já havia estado em vários países principalmente em ilhas, como Maiorca, ilhas perdo de Mónaco, Grécia. Chegou a ter um romance rápido em Atenas, mais devido a sua vida "lá e cá" não virou, como sempre acontecia. Naquela época não ligava a certas coisas pois vivia o momento, e pra ele bastava. Não tinha planos sobre o futuro como a maioria de seus amigos, nem se prendia a relacionamentos, simplesmente amava a vida do jeito que ela vinha, a sua maneira. Notava-se que aquele senhor, usava uma bengala, pois era manco de uma de suas pernas, devido a um acidente a alguns anos atrás, e uma de suas mãos estava deformada, na primeira vez que vi não notei, mas como tempo fui vendo a dificuldade dele de manejar um copo, de acender seu cigarro ou até mesmo de se apoiar, e tinha feias cicatrizes em sua face. Tudo se passou numa de suas viagens ao Oriente Médio, exatamente em Israel quando fora mandado lá em questão de uma matéria sobre o Muro das Lamentações. Naquela época havia festas cristãs, onde muitos se juntavam para orar e deixar suas preces em escritos no famoso muro, Templo de Herodes. Naquela tarde, ele e sua equipe passavam por uma área não segura de Jerusalém quando foram atingidos por estilhaços de uma explosão a poucos metros. No fundo foi um atentado de extremistas árabes, fragmentos ainda da Guerra Dos Seis dias, iniciada em 1967. Na época as Nações Unidas garantiu segurança mas os conflitos já tomava conta daquele pedaço de terra. Quando nosso fotógrafo se deu conta, já estava num hospital em um distrito perto de Jerusalém, pois a capital por aqueles dias estava um caos. Já havia se passado dias, do coma por fim ele acordou. Naquele exato momento ele pela primeira vez sentiu realmente como era a solidão, não havia nenhum amigo, nenhum parente, nada. E a notícia que tanto temia fora dado por um médico desconhecido. Devido as queimaduras e fraturas nas mãos, não poderia mais continuar a tiras fotos, o seu sonho de muleque chegou ao fim. Em meio a terapias e a recuperações já em sua terra natal, por mais que tentasse sabia que a recuperação a cem por cento nunca teria, ao fim de alguns meses largou das lentes, lágrimas. Assim então até aquele ponto vivia a vida assim, monótona, sem anseio, apenas vivendo, existindo. Naquelas noites no balcão, sempre que chegava a casa perguntava si mesmo se valeria a pena continuar a viver. O suicídio nunca havia lhe passado pela cabeça, e também nunca aceitara certa idéia, mas naqueles dias por muitas vezes esse sentimento obscuro tomava conta, mas nunca o fez. Naquela noite, já ia pela terceira garrafa de vinho, até que quase uma da manhã altura em que se encerrava o estabelecimento ele se levantou, desejou boa noite e se perdeu em meio a escuridão. Seu apartamento ficava a alguns quarteirões dali, andando sem rumo, caiu duas vezes ao chão devido ao seu estado alcoólico. Chegando a beira de uma ruela escura e fria, no meio do lixo ali depositado ouvi uma voz,de um menino de rua:
-Boa noite Sr Joseph.
What? Quem é você? Como sabe meu nome?
-Eu sei tudo por aqui, conheço todos nasci e
cresci nas ruas, sabe como é...
Ah tá, lembro de você agora, já o vi por ai.Você não tem família rapaz, volte para sua casa já é tarde.
-Não, sou sozinho no mundo, igual ao senhor neste momento
Jesus Cristo! Exagerei no vinho...
O velho se sentou ali em meio a jornais e lixo, começaram a conversar. Ambos contaram suas histórias, e por mais impossível que seja, a do menino Luís era pior. E ao contrário de muitos, o menino não teve medo das horríveis cicatrizes, antes pelo contrário achava que nelas havia muitas histórias. O senhor sábio, já viajado e bem vivido se sentiu bastante confortado ali com o menino, já sentara em poltronas de aviões de luxos, já esteve nos melhores hotéis das capitais, mas ali enfim se encontrou. O menino dividiu seu único pedaço de pão, que consegui o dia todo a pedir esmolas e a roubar de algumas padarias. Joseph aceitou, lhe veio na cabeça a Santa Ceia, que até alguns anos atrás passava em casa de amigos, mas até então passava sempre só. Aquele pobre menino de rua, sujo por fora, mas limpo por dentro achou o fotógrafo o homem mais sábio que até então havia conhecido. Joseph contou de suas viagens, de seus momentos felizes mas parou quando chegou na trágica viajem a Israel. Só mostrou ao pobre garoto suas mãos e o motivo de suas desgraças. Por minutos o silêncio reinou entre eles. Naquele momento juntaram-se as mãos, lágrimas de ambos se misturavam com o sereno daquela noite fria. O menino disse ao velho que ao longo de sua vida recebeu poucas flores e muitas pedras, mas as pedras o tornava cada vez mais forte e no meio de tantas pedras, um dia brotaria um flor. Pela primeira vez em sua vida o velho sábio sentiu que tudo que vivera até aquela noite passava a ter um novo significado em sua vida, foi como um chamado vindo dos céus, igual aquele de Cristo quando chamou por Lazáro, era hora de se levantar de novo, pois em meio a tantos momentos felizes e tristes, o menino lhe ensinou que a única coisa que importa em nossas vidas são as vitórias e as derrotas são troféus que no futuro teremos em nossas mãos, o menino aprendera nas ruas o que Joseph não captou em suas viagens. Por fim Joseph pensou no futuro, e decidiu dar uma nova chance a si mesmo, passaram a noite ali, o velho leu o livro ao menino, contou-lhe uma história sobre um menino que derrubou um gigante, com apenas uma pedra derrubou um ser montado em armaduras.
Sabe como David conseguiu tal feito Luís?
-Sei, buscou forças através dos Deuses lá de cima, e será através desses Deuses que nós derrubaremos todos obstáculos que se oporem em nossa frente.
Amém, disse o velho.
Luís naquelas noites frias, sempre costumava queimar revistas, jornais e livros velhos para se aquecer. O único papel que restava era o livro de Joseph, Luís que não sabia ler nunca recebeu tão bem o frio como naquela noite, e ao som da sábia voz de Joseph, pegou no sono ouvindo belas histórias de Reinos Antigos. Naquela noite mesmo não sendo natal, ambos tiveram a ceia mais excêntrica de suas vidas, o pão nunca foi tão saboroso, tinha sabor de vida. Naquela manhã quando chegou a casa, depois de anos e anos sem pegar na sua antiga e companheira câmera, foi até o seu baú e de lá tirou-a, ali estava sua pentax, pôs a câmera em seu pescoço como nos velhos tempos, pegou em seu livro e na companhia de Luís, juntos lá se foram os dois velhos jovens, descobrir novos Reinos Encantados e destruir velhos e obscuros gigantes. A vida brotava outra vez, em pedras, livros, pão e lentes.
(Johny Farias)
Homenagem minha a um sábio amigo, longe porém perto
"Davi, porém, disse ao filisteu:
Tu vens a mim com espada, com lança,
e com escudo, porém eu venho a ti em nome
do Senhor dos Exércitos, o Deus de Israel."
(I Samuel 17/41)
"E quando comiam, Jesus tomou o pão
e, abençoando-o, o partiu, e o deu aos
discípulos, e disse, Tomai, comei,
isto é o meu corpo."
(Mateus 26/26)
"E, tendo dito isto, clamou com grande
voz: Lázaro, sai para fora.
E o defunto saiu..."
(João 11/43-44)
Recebo com grande alegria
mais três selos, obrigado.
Este recebi da Verônica:
E esses dois do amigo Abel:
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Repasso todos para:
Juliana Caribé
http://julianaocaribe.blogspot.com/
Blog da Mary
http://www.outroblogdamary.com/
Blog De tudo e tal
http://detudoetal.blogspot.com/
e a menina do Blog Patty's Page
http://patty-page.blogspot.com/
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Caso já tenham os selos, fica como
uma forma de agradecer os belos textos
que nos tem proporcionado.
Parabéns a todos.
"...e o gigante foi ao chão..."